Este é um post que pode parecer pessimista, mas acreditem, não é. É libertador!

Obrigações e Família
O que acontece quando deixas de viver o Natal com a sua magia infantil?
No meu caso, uma espécie de desilusão que se acumula ano após ano: doenças, trabalho, família que se separa, mais trabalho, organização, gasto excessivo. Não quero soar dramática, mas sempre que as festas terminam, penso: "Uff, já acabaram! Agora é hora de descansar."
E é que ser adulto não é aquilo que nos prometeram (pelo menos a mim, enquanto millennial), e a esta altura, acho que já todas nos apercebemos disso.
Pensar nos presentes que temos de comprar, nos jantares que temos de preparar ou àqueles a que temos de ir, nas conversas desconfortáveis que sabemos que vamos ter. Ai! E nem falemos da quantidade de perguntas intrusivas e fora de lugar que vamos receber:
"Estás mais gorda?", "Porque não pintas os cabelos brancos?", "E a tua cara-metade?", "Porque não tens filhos?"... Ai, que nervos!
E lá estás tu, a tentar navegar por tudo isto com um sorriso no rosto, enquanto por dentro fazes malabarismos para não deixar cair nenhuma das bolas que tens no ar.
E quando te perguntam o que oferecer a X pessoa? Porque estão exatamente naquele momento no centro comercial e "precisam de saber já!" A verdade é que… Não sei! Nem sequer sei o que quero eu, quanto mais saber o que querem os homens, mulheres, crianças, amigos, animais de estimação e fantasmas da minha família, família política, vizinhos e pessoas que agora nem me vêm à cabeça. E sabes que mais? Está tudo bem. Não tenho de saber tudo, nem de corresponder às expectativas dos outros.
Todos os anos convenço-me de que vou levar tudo com mais calma. Durante anos, tentei convencer-me de que "desta vez não me vai importar", que "este ano vai ser diferente." Mas no final, a culpa entrava por uma fresta qualquer e sussurrava-me ao ouvido que não estava a fazer as coisas bem, que não estava a cumprir o que esperavam de mim.
Mas este ano foi diferente. Este ano permiti-me largar. Permiti-me não sobrecarregar com tarefas e deixar ir as expectativas, as culpas, os "deveria" e os "teria que". E sabem que mais? É maravilhoso. É libertador. É saudável. Porque quando tiras essa pressão de cima dos ombros, percebes que também libertas os outros. Quando tu estás bem, quem está à tua volta também consegue relaxar. Não há tensões e, se há críticas, entram por um ouvido e saem pelo outro. Não há culpa. Há paz.

Consumo
O consumo no Natal é outro tema que me deixa com um nó no estômago. As luzes, os anúncios, as promoções… e o "Compra, compra, compra!" que ecoa em cada esquina. Ouvi dizer que muitos centros comerciais tiveram a melhor campanha de Natal de sempre. E não consigo deixar de me perguntar: a sério?
Porque, ao mesmo tempo, não paramos de ouvir que o nível de vida caiu, que os bancos alimentares têm cada vez mais pedidos, que tudo está mais caro, que não há dinheiro... E então, como é que isto se encaixa no sucesso da "melhor campanha de Natal de sempre"? A sério?
Vivemos num mundo que transformou o Natal numa corrida desenfreada para gastar. Montes de papel de embrulho que acabam no lixo, decorações descartáveis, brinquedos que mal duram uns meses. Será que precisamos mesmo disto tudo?
Encontramo-nos presos numa contradição constante: gastar o que não temos para manter viva uma ilusão que, muitas vezes, nos desgasta mais do que nos preenche.
O planeta está a pedir-nos um respiro. Não podemos continuar a consumir ao ritmo atual sem esperar consequências. Cada pequeno gesto conta: escolher produtos feitos para durar e que sejam realmente úteis, apoiar pequenos negócios locais, evitar excessos desnecessários, reutilizar, reciclar.
E aqui vem a maior contradição de todas: eu também faço parte deste sistema. O meu negócio depende do Natal. É a minha melhor época de vendas, e sem ela, não sobreviveria. Eu própria já fiz algumas (mini) promoções de Natal. Não quero dar lições a ninguém, nem apontar o dedo. Isto não é mais do que uma reflexão pessoal, uma necessidade de colocar em palavras aquilo que há muito tempo sinto.
Porque, enquanto tudo isto me sobrecarrega, também tento lembrar-me de que há maneiras de fazer melhor. Que há formas de consumir com consciência, de apoiar projetos bonitos, de oferecer com sentido e de escolher com cuidado.
No final, não se trata de deixar de consumir, mas de o fazer de forma mais responsável, mais humana e mais ligada ao que realmente importa.

Tudo é válido, desde que estejamos confortáveis
O Natal não é um tamanho único, não é um molde onde todas as pessoas encaixam. E, embora às vezes pareça que há apenas uma forma certa de celebrar estas datas, a verdade é que não há.
Se passas o Natal sozinha, está tudo bem.
Se passas com amigos, está tudo bem.
Se vives o Natal como um dia qualquer, está tudo bem.
Se fazes um jantar por videochamada porque estás longe, está tudo bem.
Tudo é válido, desde que te sintas confortável, tranquila e em paz com a tua decisão.
Estas datas podem ser o que tu quiseres que sejam: uma ocasião para descansar, para reconectar, para rir, para chorar, para fechar ciclos ou simplesmente deixar que passem sem mais. Não há um manual, não há regras universais.
O importante é que te sintas bem com aquilo que decides fazer (ou não fazer). No final, o Natal não está nos presentes, nem na comida, nem nas luzes. Está no espaço que damos a nós próprias para o vivermos como realmente queremos.
E se não há paz aí, talvez seja altura de escrevermos as nossas próprias regras.
Boas festas, à tua maneira! 🎄✨
